terça-feira, 28 de maio de 2013

DURANTE A TEMPESTADE...

Não sei se consigo escrever (e descrever) pelo o que eu passei ontem...mas de fato, foi difícil.
Chegando em casa, depois de um dia inteiro no trabalho, estudo, compromissos e por fim, academia, fui jantar. Conforme orientação da nutricionista o jantar pós treino é: proteína + salada (como todos os dias os quais chego da academia).
Fui me servir e tinha carne de soja, legumes, salada...fiz meu prato e vi em uma panela em cima do fogão que tinha arroz. Pensei: "só um pouquinho de arroz não faz mal...", me servi, e sentei para jantar.
Jantei e pensei: "Nossa, que arroz gostoso, acho que vou comer mais um pouquinho..." e me servi, pela segunda vez. 
Na terceira vez eu já não me servi, fiquei ao lado da panela comendo com a colher..."hum, tá gostoso..". Fui para sala. Pensei que estava tendo uma compulsão naquele momento e que eu deveria me controlar...afinal, era arroz. Arroz nosso de tanto santo dia (que por não achar saudável, muitas vezes troco por integral). Na quarta vez, em uma cena para lá de humilhante, arranquei aqueles blocos de arroz ("unidos venceremos") que ficam grudados no fundo da panela e comi, comi, comi e pensei que iria vomitar. Mas lembrei que estou há quase três meses sem vomitar e que não deveria fazer isso. 
Desesperadamente liguei para o meu noivo ("o" anjo da guarda) e pedi para ele vir para casa. Me encolhi na sala e fiquei no telefone com ele até ele chegar.
Foi desesperador. A vontade de vomitar era quase que incontrolável, chorei, puxei meu cabelo, quis me enterrar em um buraco e nunca mais sair.
Quando meu noivo chegou, me abraçou e ficou me acalmando...e eu disse que eu tinha vergonha daquela situação. Porque eu tenho mesmo.
Entrei no banho, chorei mais um bom tempo...e a essa altura eu já nem sabia mais o o porquê de estar chorado...se ela por querer vomitar e não poder, se era pelo simples fato de querer vomitar, se era porque eu achava que eu engordar com o tanto de arroz que eu comi...sei lá...
Depois do banho, me enterrei na cama e só sai de lá hoje pela manhã.
O meu noivo me fez uma observação que eu achei interessante, será que eu não me sentiria pior se eu tivesse vomitado? A sensação de fracasso, humilhação e tudo de ruim, iriam voltar. 
Mas também, em contrapartida, não me sinto feliz por não ter vomitado ontem. Não sei explicar o sentimento...é algo muito dúbio. Enquanto me faz bem não ter feito, eu queria ter feito.
E outra coisa interessante...o ato de vomitar faz tão parte de mim que eu não penso que eu vou engordar por não ter vomitado. Eu sinto falta de induzir o vômito simplesmente por induzir o vômito. Assustador, né?!
Foi um hábito adquirido por anos e anos e agora não consigo me desfazer dele. 
As sequelas da noite de ontem ainda estão em mim. Ainda me vejo humilhada encolhida na sala. 
Eu sei que nem todas que passam por isso tem um Anjo na vida, como eu tenho o meu Gato. Mas, a partir do momento que decidirem vencer essa doença, contem para alguém que não vá julgar vocês. Que não achará que é frescura. Alguém que em um momento de crise, vocês vão poder pedir socorro.

Ontem, se eu não tivesse o meu Gato, não sei o que eu faria. Se eu não vomitasse, acho que acharia outro meio de me auto-flagelar.

De qualquer modo, esse depoimento é para mostrar que os meus quase três meses sem vomitar não tem sido nada fáceis. Não é a primeira vez que tive uma crise dessa e nem será a última. Porém, pior que enfrentar esse tratamento é conviver com essa doença que nos maltrata (por dentro e por fora) eternamente.

Eu decidi vencer. E você?

domingo, 26 de maio de 2013

INICIANDO...

Clichê esse título, né?!
Mas achei o mais propício para esse novo passo...partilhar o que sinto com pessoas que tem os mesmos problemas, dúvidas e dificuldades do que eu.
Sofro de bulimia há 13 anos, estou em tratamento e há cerca de 80 dias sem vomitar. Mas tem sido 80 dias bem difíceis.

Sou mulher, carreguei essa doença comigo durante anos e nunca ninguém soube. Há um ano vi que não poderia ficar assim. Comecei a ter planos de casar, constituir família, estava em ascensão profissional...não "combinava" com a condição de bulímica.
Eu já frequentava o consultório psiquiátrico há um ano, quando tomei a decisão de contar para a minha médica o que eu enfrentava. Começamos o tratamento para ansiedade e em todas as consultas eu tentava falar para ela o que eu sofria. Mas nunca tinha coragem. Até que em uma época terrível, vomitava três, quatro vezes por dia, junto com aquela sensação de impotência, de dor, de fracasso...e decidi contar para ela.
Ela foi fofa, começamos tomando uma dose de Prozac (uso o nome Prozac, porque ela tem preferência por esse e não pelo "genérico"), 20mg por dia. 

Umas semanas depois que eu estava tomando o medicamento, tirei forças da minha alma e contei para o meu noivo. 
Quando contei para o meu noivo descobri que a missão dele na terra era ser meu Anjo. Porque ele é perfeito. Mas isso conto em outro post.
Durante meses tomei 20mg de Prozac e eu tinha episódios usuais...uma vez por semana; uma vez por mês...até que, depois de 12 meses tomando 20mg, contei para a psiquiatra que eu ainda tinha episódios...e que eu premeditava eles. Nossa! Sai até torta do consultório, porque ela me deu uma "carcada" tão grande. Lembro até hoje das palavras dela:
"Linda, não quero te dar um remédio mais forte. Vejo que você está dentro da sua psique perfeita. Tem percepção do mundo externo e consciência das suas atitudes."
Depois daquela consulta (divisora de águas, eu diria) resolvi voltar para a psicoterapia (que eu já tinha feito uma vez e achado uma peeeerda de tempo total. Eis que a minha psiquiatra me apresentou uma linha chamada "terapia cognitivo comportamental" a qual tem me ajudado muito) e mudar meus pensamentos.
Cada dia é uma luta. Cada dia vou escrever um pouco sobre a minha luta diária. 
O nome do blog é "bulimia tem cura" porque tem. Na verdade, podemos chegar a remissão total, contudo, para isso, precisamos buscar ajuda. Sem ajuda não chegamos a lugar nenhum.

Esse espaço também servirá para ajudar leitoras que se identificam com o que descrevi aqui. A bulimia não é um "simples" transtorno alimentar, atrás dessa doença há milhares de sentimentos que precisamos descobrir e dominar. Estamos todas em busca da cura. Vamos juntas?